No primeiro século D.C. a igreja estava bem ligada com suas raízes judaicas, e Jesus não tinha nenhuma outra intenção. No final, Jesus é judeu e a base de Seus ensinamentos é consistente com as Escrituras Hebraicas. Em Mateus 5:17,18 ele diz:
"Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra".
Também sabe-se que os escribas do Novo Testamento eram judeus, e os apóstolos e primeiros discípulos eram judeus. Eles guardavam o Shabat, celebravam as festas e iam à sinagoga. Mesmo os membros da iniciante Igreja em Jerusalém e nas vizinhanças da Judéia, Samária e Galiléia, eram predominantemente judeus, pois sabemos que não haviam nomes não-judaicos entre as lideranças da igreja de Jerusalém até depois de 135 D.C., quando um grego aparece. Veremos o por quê disto em um momento.
As congregações em outras partes do Império Romano também tinham raízes judaicas ou hebraicas relativamente profundas, por se alinharem com as diretrizes da Escola de Pensamento de Jerusalém, como ilustrado pelos nomes das várias epístolas do Novo Testamento. As cartas aos Coríntios, Romanos, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses e Tessalonicenses. Também os escritores das outras Epístolas estavam ligados à congregação judia.
Mas o que aconteceu para causar tão grande cisma entre as comunidades judias e cristãs? Inicialmente, ele começou como resultado de diferenças religiosas e sociais.
Antes da Primeira Revolta Judaica em 66 D.C., o cristianismo era basicamente uma seita do judaísmo, como o eram os fariseus, os saduceus e os essênios. Os cristãos eram também conhecidos como os nazarenos. Antes da destruição do Templo e de Jerusalém ter sido arrasada pelos romanos em 70 D.C., havia espaço para debate dentro do judaísmo na crescente cidade cosmopolita de Jerusalém. Entretanto, de acordo com David Rausch em seu novo livro "A Legacy of Hatred" (Uma Herança de Ódio), a intrusão romana na Judéia e a larga aceitação do Cristianismo pelos gentios complicavam a história do cristianismo judaico. As guerras romanas contra os judeus não apenas destruíram o Templo e Jerusalém, mas também resultaram em forçar Jerusalém a abandonar sua posição como o centro da fé judaica no mundo romano. Além disso, a rápida aceitação do cristianismo entre os gentios levou a um conflito entre a igreja e a sinagoga. Os gentios cristãos interpretavam a destruição do Templo e de Jerusalém como um sinal que Deus tinha abandonado o judaísmo, e que Ele tinha provido os gentios com liberdade para desenvolver sua própria teologia cristã num contexto livre de influências de Jerusalém.
Os sábios judeus que conseguiram sobreviver a revolta se congregaram em Jabneh (Yavné), uma cidade na Planície de Sharon, perto de Jope, e decidiram que a Escola de Hillel, mais chegada a seita farisaica do judaísmo, seria adotada e praticada como halachá ou Lei (os ensinamentos farisaicos estavam mais interessados no relacionamento entre cada indivíduo e Deus e encorajavam as massas para santidade baseada numa estrita observância da Torá). Mesmo que o judaísmo farisaico tenha demonstrado tolerância com os judeus-cristãos ou nazarenos antes da destruição, a assembléia de Jabneh completou uma separação entre o cristianismo e o judaísmo. Infelizmente, os judeus-cristãos tinham de dissociado da guerra contra os romanos e da tragédia que tinha caído sobre a nação. Acreditando que a sufocação da revolta pelos romanos era um sinal do final, eles fugiram para Pella, a leste do rio Jordão, deixando seus companheiros judeus a se debater sozinhos.
Mais tarde, em 132 D.C. quando Bar Cochba orquestrou a Segunda Revolta Judia contra Roma, os judeus-cristãos tinham outra razão para não participar. Bar Cochba foi nomeado Messias pelo Rabbi Akiva. Como os cristãos viam Jesus como o Messias, participar da revolta sob o comando de Bar Cochba significaria trair suas crenças. Quando a revolta foi esmagada pelo Imperador Hadriano em 135 D.C. Hadriano expulsou todos os judeus de Jerusalém, permitindo que retornassem apenas um dia por ano, em Tisha Be'av, para o luto pela destruição do Templo. E daí portanto, o registro do primeiro nome grego na liderança da igreja de Jerusalém, como resultado da proibição romana da entrada de judeus na cidade. Hadriano também reconstruiu Jerusalém como uma cidade romana e mudou seu nome para Aelia Capitolina e o nome da Judéia para Síria Palestina. Isto foi feito para apagar qualquer ligação judaica com a cidade de Jerusalém e com a terra de Israel.
Por esta época, a Igreja tinha efetivamente se separado do judaísmo. O poder teológico e político se transferiu dos líderes judeus-cristãos para centros de liderança cristã de gentios como Alexandria, Roma e Antioquia. É importante entender esta mudança, porque ela provocou os primeiros Patriarcas da Igreja a fazer declarações anti-judaicas.
Com a expansão da igreja dentro do Império Romano e com o crescimento das congregações de não-judeus, o pensamento grego e romano começou a entrar e completamente mudar a orientação da interpretação bíblica através da psique grega e não de uma psique judia ou hebraica. Isto depois resultaria em muitas heresias, algumas das quais ainda praticadas pela igreja.
Com o judaísmo e o cristianismo seguindo caminhos distintos, o vácuo foi se tornando cada vez maior. Os judeus tinham sido suprimidos com eficiência pelos romanos, e a cristandade estava se espalhando com vigor. Isto preocupava Roma e a pressão política decorrente se tornou o terceiro fator no crescente cisma entre cristãos e judeus. Sob a lei romana, o judaísmo era considerada religião lícita, uma religião legal, pois ela predatava Roma. Para unificar o Império Romano, todos deveriam adorar os deuses romanos e aceitar ao Imperador como um deus.
Obviamente, os cristãos não podiam se sujeitar à esta adoração pagã e portanto se recusaram. Foi durante este período que encontramos cristãos sendo usados para esporte nos coliseus e circos romanos, como gladiadores, ou lançados aos leões. O imperador Nero os usava mesmo como tochas, para iluminar seus jardins de noite, pondo-os em fogo depois de os submergir em alcatrão. O símbolo do peixe, e não a cruz, e cruzar os dedos eram usados pelos cristãos entre eles mesmos, como sinais de identificação durante este período.
Para aliviar esta perseguição, os apologistas cristãos tentavam em vão convencer Roma que o cristianismo era uma extensão do judaísmo. Mas Roma não se convencia. As perseguições e as frustrações resultantes alimentaram uma animosidade para com a comunidade judia, que estava livre para adorar sem perseguições.
Esta animosidade foi refletida nos escritos dos Patriarcas da Igreja. Por exemplo, Eusébio escreveu que as promessas das Escrituras Hebraicas eram para os cristãos e não os judeus, e que as maldições eram para os judeus. Ele dizia que a Igreja era a continuação do Velho Testamento e portanto sobrepujava o judaísmo. A jovem igreja se declarou ser o verdadeiro Israel, ou seja, o Israel espiritual, herdeira das divinas promessas, e achava essencial desacreditar a Israel de acordo com a carne para provar que Deus tinha se despojado de Seu povo e transferido Seu amor para os cristãos.
Nisto encontramos os inícios da Teologia da Substituição, que colocava a igreja triunfante sobre um judaísmo e Israel vencidos. Esta teoria da Substituição se tornou em uma das fundações básicas sobre as quais se baseia o anti-semitismo cristão, mesmo em nossos dias. Incidentalmente, o Novo Testamento fala de uma igreja saída dos filhos adotados de Abraão e de Israel espiritual, NÃO de usurpadores da aliança e o substituto de uma Israel Física.
No começo do século IV, um evento monumental ocorreu para a igreja. Em 306 D.C., Constantino se tornou o primeiro Imperador Romano cristão. No começo ele concedeu aos judeus os mesmos direitos religiosos que aos cristãos. Entretanto, em cerca de 312 D.C., ele declarou ser o cristianismo a religião oficial do Império. Isto assinalou o fim da perseguição de cristãos, mas o início da perseguição do povo judeu.
Em 313 D.C., o Édito de Milão colocava fora da lei as sinagogas, e em 315 outro édito permitia queimar judeus, se condenados por quebrar a lei.
* Os privilégios antigos dados aos judeus foram cancelados;
* A jurisdição rabínica foi abolida ou severamente diminuída;
* O proselitismo ficava proibido e punido com a morte;
* Os judeus foram excluídos de altos postos ou da carreira militar. Em 321, Constantino decretou que todos os negócios deveriam fechar no dia em honra ao sol, escolhendo assim outro dia para as preces, avançando ainda mais o cisma.
* Da noite para o dia, o Cristianismo recebeu o pode do Estado. Invés da igreja usar a oportunidade para espalhar a mensagem de amor do Evangelho, ela na verdade se tornou a igreja triunfante, pronta para vencer seus inimigos. A partir de 312, os escritos dos Patriarcas da Igreja tiveram outro caráter. Não mais defensivos e apologéticos, mas agressivos, e dirigindo seu veneno contra todos fora do rebanho, em especial o povo judeu.
Fonte:
http://www1.uol.com.br/biblia/revista/edicao3/anti-1.htm
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