
Uma porta grande e oportuna para o trabalho
se me abriu; e há muitos adversários.
1 Coríntios 16.8,9
As razões que Paulo menciona para prolongar sua estada em Éfeso refletem sua mentalidade reformadora. Primeiro, foi-lhe dada uma grande oportunidade. Segundo, sofria a oposição de muitos adversários. Analisando seu raciocínio, descobrimos alguns ingredientes essenciais para o desenvolvimento de uma perspectiva voltada ao trabalho de reforma.
Reconheça as Oportunidades
Paulo era um pregador, um evangelista. Seu alvo era "por todos os modos, salvar alguns... por causa do evangelho" (1 Co 9.22,23). Em Éfeso, encontrou uma porta aberta para realizar seu chamado. Ali havia pessoas ouvindo a pregação do evangelho ministrada por ele, tanto pública como particularmente (At 20.20).
Paulo descobriu que a oportunidade em Éfeso era "grande". Porém, não significava que a tarefa seria fácil. Ele não poderia simplesmente pendurar uma placa, abrir as portas e ver uma igreja desenvolver-se e crescer. As oportunidades eram de engajar-se em diligente trabalho ministerial. Relembrando seu tempo em Éfeso, Paulo testemunhou: "Por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um" (At 20.31). Quantos pastores, hoje, podem dizer a mesma coisa? Quantos consideram uma oportunidade destas como uma legítima responsabilidade pastoral?
A oportunidade que Paulo julgava grande consistia no privilégio de gastar-se continuamente pela causa do evangelho. Era a oportunidade de chorar pelas almas de homens e mulheres; de pregar e ensinar o evangelho; de anunciar aos efésios "todo o desígnio de Deus" (At 20.27).
O que fez de Éfeso uma tão maravilhosa oportunidade não foi a facilidade do trabalho, ou o clima, ou o nível educacional do povo, ou o salário e os benefícios. Não! O que a tornou tão atraente para Paulo foi o fato de que Deus o colocou tão providencialmente ali, em meio a tantas pessoas necessitadas. E, como um ministro de Cristo, estava convencido de que no "evangelho da graça de Deus" (At 20.24) tinha a resposta às suas necessidades.
Avalie Corretamente a Oposição
Um segundo aspecto na atitude reformadora de Paulo era a adequada avaliação de seus oponentes. Pode parecer estranho a alguns que um ministro do evangelho tenha oponentes. Somos, afinal, chamados para viver vidas sem mácula e para almejar uma "consciência pura diante de Deus e dos homens" (At 24.16; 2Co 6.3; Fp 1.10).
Porém, até mesmo o ministro que alcance isto em alto grau (e ninguém o atinge perfeitamente) inevitavelmente encontrará oposição.
Embora não devamos ofender, o evangelho é irreparavelmente ofensivo. Continua sendo uma pedra de tropeço e um escândalo para vários tipos de não-crentes. Não se engane, onde o evangelho bíblico é pregado, ali haverá oposição. Pensar de outro modo, revela não somente uma inocência irrealista, mas também falta de familiaridade com o livro de Atos.
Observe o que Paulo disse. Determinou ficar em Éfeso, não apesar da presença de muitos adversários, mas por causa deles! Julgou a oposição a seu ministério como uma razão para ficar. Nós, volúveis modernos, não tendemos a pensar assim. Pastores são freqüentemente tentados a interpretar a oposição como uma indicação divina de que seu ministério naquela igreja está terminado. O homem que facilmente se entrega a esta tentação não desenvolveu, ainda, uma atitude reformadora e, inevitavelmente, achará impossível o trabalho de reformar doutrinariamente uma igreja.
Quando consideramos os adversários de Paulo, em Eixo, há dois tipos que são facilmente identificados.
1 - Oponentes Pagãos
Em Éfeso, o evangelho desafiava as falsas religiões existentes e os seus respectivos interesses econômicos. À medida em que as pessoas se convertiam, é óbvio, abandonavam seu falso culto e deixavam de comprar os ídolos feitos à mão, que eram vendidos pelos ourives da cidade. Como a mensagem causava impacto, a raiva era dirigida ao mensageiro.
Demétrio tornou-se um declarado oponente de Paulo, arregimentando seus companheiros ourives contra o apóstolo. Sua acusação revela sua animosidade: "Este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente, afirmando não serem deuses os que são feitos por mãos humanas. Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram" (At 19.26,27).
A hostilidade contra Paulo tornou-se tão grande que uma forte confusão se instalou na cidade. Mesmo assim, o apóstolo não foi, por este motivo, compelido a parar seu ministério em Éfeso. Ao contrário, viu-o como uma razão para ficar. Por quê? Era Paulo simplesmente um "cabeça-dura"? Sentia algum tipo de prazer, ao ver pessoas com raiva dele?
Não. A única maneira de entender o sentido da resposta de Paulo é compreender sua mentalidade reformadora. Compreendemos melhor o seu pensamento, considerando seu discurso aos presbíteros efésios, em Mileto. Ao falar das cadeias e tribulações que o aguardavam em Jerusalém, disse: "Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus" (At 20.24).
O que importa é a causa de Deus e sua verdade, no mundo. Se a oportunidade para pregar o evangelho permanece, então o desprezo e a hostilidade do mundo não-crente, mesmo a mais severa, é razão insuficiente para abandonar o campo.
2 - Oponentes Religiosos
Se a oposição dos não-crentes é difícil de enfrentar, a oposição de pessoas religiosas é ainda mais árdua. Os maiores adversários de Paulo procediam da liderança judaica. Estes, muitas vezes, consideravam-se modelos de virtude. Eram guardiães da tradição e, conseqüentemente, resistiram ao "novo" ensino dos cristãos primitivos (que, na verdade, era o correto entendimento e cumprimento do "antigo" ensino, no Velho Testamento).
Enquanto o mundo mostra-se direto em seu ataque contra o evangelho e seus mensageiros, os opositores religiosos são sempre mais sutis. Talvez Paulo tivesse seus opositores religiosos em mente, quando advertiu os presbíteros de Éfeso a respeito dos "lobos vorazes", que penetrariam na igreja, e dos homens, dentre eles mesmos, que se levantariam e falariam "cousas pervertidas" (At 20.29,30). Suas cartas a Timóteo, que pastoreava a igreja, em Éfeso, indicam preocupação semelhante sobre a oposição dos religiosos (1Tm 1.3-7; 4.1-5,12; 2Tm 2.14-18,23-26; 3.1-13; 4.1-5, etc).
O triste fato é que, desde os dias de Paulo até os nossos, a oposição sutil e prejudicial, contra o evangelho, tem sido sempre planejada por aqueles que se acham religiosos. O seu ódio pela mensagem manifesta-se em desprezo para com o mensageiro. É uma experiência dolorosa e árdua de suportar. Às vezes, pode ser completamente desanimadora. Mas, não é razão para interrompermos o trabalho de reforma completa e bíblica, em uma igreja.
Conclusão:
Hoje em dia, quando as igrejas estão em confusão espiritual e doutrinária, o chamado a todo pastor e a cada crente sincero é orar por reforma e trabalhar em favor dela. Fazer isto exige o desenvolvimento de uma nova visão, uma nova perspectiva dos desafios e oportunidades diante de nós.
Paulo oferece um excelente modelo para seguirmos. Olhava para seu trabalho com uma mentalidade reformadora (cf At 18.26). Esta mesma atitude é encontrada na vida dos grandes mártires e reformadores, em toda a história da igreja. É resumida e expressa por Martinho Lutero em seu grande hino da Reforma.
Se nos quisessem devorar, demônios não contados,
Não nos podiam assustar, nem somos derrotados.
O grande acusador dos servos do Senhor,
Já condenado está! Vencido cairá
Por uma só palavra.
Sim, que a Palavra ficará, sabemos com certeza,
E nada nos assustará, com Cristo por defesa!
Se temos de perder os filhos, bens, mulher,
Embora a vida vá, por nós Jesus está,
E dar-nos-á seu reino.
"Castelo Forte", Cantor Cristão, 323
Se esperamos ver uma recuperação do evangelho em nossos dias, devemos abraçar a mensagem deste hino. Precisamos comprometer-nos com tenacidade apostólica à tarefa diante de nós. Mais importante ainda, precisamos comprometer-nos novamente a lembrar de Jesus Cristo, "que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo", para que não nos fatiguemos, desmaiando em nossas almas (Hb 12.3).
Fonte: Livro - “Desafio à Reforma” autor: Thomas K. Ascol - Ed. Fiel. – Resumo e adapitação para o blog Rev. Ronaldo P.Mendes - BLOG: SOLUS CHRISTUS- http://somente-jesus.blogspot.com/